sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MANTENDO UM BOM CLIMA NO CASAMENTO


Conta-se a história do político que morreu e teve a oportunidade de escolher para onde gostaria de ir. Evidentemente isto é uma piada e assim deve ser vista. Não é ensino teológico. Visitou o céu e viu coros, anjos, harpas, gente assentada, ouvindo ensinos e explicações, tudo tranqüilo. Visitou o inferno e gostou do que viu: mulheres bonitas, pouco vestidas, bebidas, boa música, comida farta, piadas, risos, ambiente agradabilíssimo. Voltando aonde deveria definir sua situação, disse ao anjo da recepção que o céu era bom, mas o inferno era melhor. Preferia ir para lá, ao que o anjo concordou. Gosto é gosto. Lá chegando, abriu a porta, levou um tapa violento, foi pisoteado, fincado em um garfo e jogado num caldeirão. Viu que todos estavam sendo tratados assim, e que o quadro era de desespero. Perguntou ao demônio que por ali passava porque aquilo estava acontecendo, se antes era tudo tão atraente e promissor. O demônio lhe respondeu que isto fora antes. Agora já haviam conseguido seu voto e ele tinha que agüentar a realidade.

Isto acontece em muitos matrimônios. Já se conseguiu o “sim” da outra parte e agora o cenário real aparece. A pessoa surge sem máscara, como é.
Os momentos tão agradáveis do passado cedem lugar a um caldeirão onde se é espetado diariamente.Esta circunstância sucede por causa de um equívoco. O momento do casamento foi visto como linha de chegada e não como linha de partida. Usando a figura de uma corrida, o namoro e o noivado foram à corrida e agora parece que se chegou aonde queria. O namoro e o noivado devem ser vistos como aquecimento e o casamento como a corrida. Agora é que vai começar o relacionamento verdadeiro, sem máscaras, sem atrativos para ganhar o voto da outra parte.
Tendo isto em mente, alinhavo a seguir algumas idéias para seguir no rumo proposto,“Mantendo um bom clima no casamento”. Há casamentos azedados, e outros quase a azedar. Mas há alguns em que a doçura permanece. Há alguns pontos que observo. Esses pontos Poderão ajudar nossos casamentos a não azedarem. Apenas ajudar, friso, porque somos nós quem o azedamos ou adoçamos a relação.

A CONSCIÊNCIA DO QUE FIZERAM

É preciso ter consciência do que fizeram ao se unirem pelos laços do matrimônio.Com algumas variações e poucas exceções, o quadro, em geral, é este: Homem – você tirou uma moça da casa dos pais dela; Mulher – você saiu da casa dos seus pais e atrelou sua vida à dele. É este o sentido de “serão uma só carne”. Uma nova unidade surgiu, vocês dois. Fizeram um acordo. Os dois são um. Foi uma atitude consciente, responsável, e na qual devem investir suas vidas. O maior investimento será a partir de agora. O maior investimento não foi quando o rapaz “passou a conversa” na moça ou quando a moça “seduziu” o rapaz. O maior será desde agora. Muitos casamentos falham porque os cônjuges o dão como um produto terminado, como se fosse algo completo.
O casamento nunca é completo. É algo que se constrói no dia a dia.
Não é um baobá maduro e sólido, mas uma plantinha tenra, a ser adubada e regada, todos os dias. O adubo é atenção, ternura, cortesia, boas palavras. E todos os dias devem se tirar as ervas daninhas, como ciúmes, desejo de mando, manipulação, chiliques, grossura, etc.
O que fizeram no dia do sim? “Casaram-se”, dirá alguém. Visão simplista.
“Começaram o casamento”, digo eu. Ele só estará concluído quando acabar. E só acaba pela morte de um dos dois, como é o desejo de Deus. Infelizmente, alguns acabam pelo divórcio, não como vontade expressa e direta, mas sob concessão de Deus. O que fizeram foi iniciar uma jornada em comum. Não a vejam como se fosse uma jornada pessoal, em que um é coadjuvado pelo outro, nem uma jornada de 2 beligerantes, mas uma jornada comum. Andar juntos é o que decidiram fazer. Não é apenas dormir juntos. Caminhar juntos. Uma das dedicatórias mais bonitas que já vi em um livro foi a que Francis Schaeffer fez em "O Deus que Intervém", para sua esposa, Edith: “Para aquela que tem andado de mãos dadas comigo por uns curtíssimos trinta e cinco anos”. Marido apaixonado, Schaeffer expressou bem o segredo de um casamento bem sucedido: andar de mãos dadas, e o tempo, por maior que seja, sempre é curto. Como Camões, gênio maior de nossa língua e um dos motivos de orgulho de Portugal, disse do amor de Jacó por Raquel: “Mais servira, se não fora/Para tão longo amor tão curta a vida”.

CONSTRUIR A REALIDADE

O período de namoro e noivado é de encanto e o do casamento, de realidade.
Assim entendem muitos. Expressão infeliz. Uma das coisas mais encantadoras é conhecer lugares novos. E conhecer gente nova também é bom. Mas conhecer aspectos novos de pessoas conhecidas também é bom e encantador.
Ajuda muito a viver bem. A realidade do casamento não é cruel nem má, como algumas piadas parecem indicar. Na verdade, a realidade do casamento não existe, como algo a receber. O casal a constrói. A realidade de cada casamento não é um traje pronto que envergamos, mas um que tecemos. O período pré-casamento e o período do casamento não são realidades colidentes, em choque uma contra a outra. A realidade que o casal constrói deve ser a projeção dos sonhos do período de encanto. Há alvos que foram delineados. Se não acontecem, que não se desista, mas que se os persigam. Talvez alguns devam ser reformulados, mas um casamento sem alvos é meio descolorido.
Muitos cônjuges destroem os sonhos e se queixam que a outra parte os destruiu. Sonhos são acalentados por pequenas coisas. E aniquilados por pequenas coisas. Homem, leve flores, abra a porta do carro para ela entrar, guarde e comemore as datas especiais para vocês. Mulher, lembre-se do prato especial dele, arrume-se para ele (há mulher que só se arruma para sair), dê-lhe apoio. No relacionamento conjugal a educação no trato deve existir. Há casais que vivem em estado permanente de beligerância. Desarmem-se, evitem os golpes baixos e construam sua realidade de maneira positiva. As coisas, principalmente as coisas boas, não acontecem por acaso. Devem ser trabalhadas. Nós construímos.
Há pessoas que, por força de sua atividade profissional, são gentis com estranhos. Mas nem sempre o são no trato com a família. Um casamento não pode prescindir de um clima de cortesia no trato, mais que a relação profissional exige. Bons modos se praticam em casa, e com o cônjuge, mais que em qualquer outro lugar e mais que com qualquer pessoa.

AUTODOAÇÃO

Conta-se a história de uma mulher que teve à sua porta, um dia, um pedinte perguntando se ela não tinha alguma coisa velha e imprestável para ela e que pudesse dar, que não lhe faria falta. Ela prontamente respondeu que sim e apontou o marido refestelado, roncando, numa poltrona. Autodoação não é isto, doar algo que deveria ser uma parte nossa. Deixem-me tentar explicar. O período de namoro e de noivado é de querer agradar a outra parte. No período de casamento, a atitude de alguns muda: querem ser agradados. A pessoa se torna intransigente. Uma das frases mais infelizes que alguém pode pronunciar é esta: “Sou assim e não mudo”. Ora, se pensa desta maneira, vá ser ermitão ou ermitã. Vá morar no mato, longe de todo mundo. Então não precisará mudar. Poderá ser o bugre que deseja ser. A vida é relacional. Temos sempre que nos adaptar a outras pessoas, lugares e situações. O casamento é uma empreitada relacional. Não se trata de impor um estilo de vida à outra parte, mas de procurar se relacionar bem com a outra parte. Isto implicará em mudanças. De ambos, não apenas de um. Se os dois se ajeitam, acabará surgindo um estilo comum aos dois, que nem mesmo era de um. Os dois se autodoaram e fizeram surgir um novo caminho. Se você deseja experimentar grande progresso em seu casamento, não espere que seu cônjuge se sacrifique ou se autodoe ou se ajuste a você. Pergunte-se: “Em que posso agradá-lo(a)? Como posso melhorar?”. Muitos querem amor, ou seja, querem doação. Mas não amam, ou seja, não se auto-doam. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro”, diz João. Jesus nos deu amor e é por isto que nós amamos a ele e uns aos outros. Quem ama não precisa pedir amor. Ele vem. Dificilmente alguém responde a amor com pontapés. Autodoe-se em seu casamento.

ENFOQUE CORRETO

Ouço muita gente dizer “Tenho o direito de ser feliz!”. Que significa isto? Que significa “tenho direito”? Direito pressupõe obrigação. Raramente ouço alguém dizer “Tenho a obrigação de tornar meu cônjuge feliz!”. E o que significa ser feliz? Ser adulado? Ser satisfeito em caprichos? Presumo que Madre Teresa de Calcutá fosse uma pessoa feliz. E havia optado pela pobreza e serviço aos hansenianos. Quando escuto alguém dizer que “tem o direito de ser feliz” fico com a impressão de que pensa que a outra parte deve ser seu capacho (como há homem que procura mulher capacho!) ou satisfazer seus chiliques (e há mulheres – homens também – chiliquentos). E deveres, têm? Quais são? Porque não os declara e busca cumprir? Seu alvo no casamento deve ser tornar seu cônjuge feliz. Se você conseguir isto, será feliz. Há homens que são conquistadores, pulando de cama em cama com razoável regularidade. Como disse alguém, conquistar uma mulher por dia é fácil. O difícil é conquistar a mesma mulher todos os dias. Seduzir um homem por dia não é difícil. Mas seduzir e encantar o mesmo homem todos os dias é mais difícil. Tenho visto que as pessoas mais realizadas na vida matrimonial não são as que reclamam amor, mas as que dão amor. Não as que buscam felicidade, mas as que buscam tornar alguém feliz. Tenhamos o enfoque correto: vida para outros e não a vida dos outros para nós. Viva para seu cônjuge. Aqui repito a auto-doação, mas não por falta de planejamento. É que estes dois tópicos são gêmeos. Há maridos tão mesquinhos, que as mulheres, dependendo deles economicamente, precisam implorar um batom ou uma bijuteria. E há maridos que nunca têm companhia. Aliás, isto já foi assunto em outra ocasião: mulher, seja mãe, seja avó, mas não deixe de ser esposa. Lembre-se da sua outra parte. Um cônjuge só faz lembrar a música de Chico Buarque: “ó metade arrancada de mim”. Quando alguém se sente bem sem a outra parte, está com enfoque errado. Foi mutilado e não sente. Está mal. E um casamento em que uma parte está mal não demora a afundar, se não for tratado. Porque 50% de gangrena podem evoluir para 100%. Se já perdeu a metade, o resto pode acabar. Para regredir precisa de tratamento.

Pr.Isaltino Gomes.

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