terça-feira, 21 de dezembro de 2010

E-mail recebido

Muitas vezes, precisamos de tão pouco para sermos felizes!!!!!!!!!!!!

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. 

Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria
aproveitar os poucos minutos de que dispunha naquele dia atribulado
para  comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que
estava  desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias, que há
tempos não  sei o que são.

Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga,uma  salada e
um suco de laranja, pois afinal de contas fome é fome, mas regime  é
regime, né? Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha
atrás de mim:

        -Tio, dá um trocado?
         - Não tenho, menino.
         - Só uma moedinha para comprar um pão.
        - Está bem, compro um para você.
        Para variar, minha caixa de  entrada estava lotada de e-mails.
Fico distraído vendo poesias, as  formatações lindas, dando risadas com
as piadas malucas. Ah! Essa música  me leva a Londres e a boas
lembranças de tempos idos.

        - Tio, pede para colocar margarina e queijo também?

        Percebo que o menino tinha  ficado ali.
        - OK, mas depois me  deixe trabalhar, pois estou muito ocupado,
tá?
         Chega a minha refeição e junto com ela o meu  constrangimento.
Faço o pedido do menino, e o garçom me pergunta se quero  que mande o
garoto ir. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer.  Digo que
está tudo bem.

        - Deixe-o ficar. Traga o pão e mais uma refeição  decente para
ele.

        Então o menino se sentou à minha frente e perguntou:

        - Tio, o que está fazendo?

         - Estou lendo uns e-mails.
         - O que são e-mails?
         - São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via  Internet.
        Sabia que ele não iria  entender nada, mas a título de livrar-me
de maiores questionários disse:

        - É como se fosse uma carta, só que via Internet.

        - Tio, você tem Internet?
        - Tenho sim, é essencial no  mundo de hoje.
        - O que é  Internet, tio?
        - É um local no  computador onde podemos ver e ouvir muitas
coisas, notícias, músicas,  conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar,
trabalhar, aprender. Tem tudo no  mundo virtual.

        - E o que é  virtual, tio?
        Resolvo dar uma  explicação simplificada, novamente na certeza
que ele pouco vai entender e  vai me liberar para comer minha refeição,
sem culpas.

        - Virtual é um local que imaginamos, algo que não  podemos
pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos  de
fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como
 queríamos que fosse.

        - Legal  isso. Gostei!
        - Mocinho, você  entendeu o que é virtual?
        - Sim,  tio, eu também vivo neste mundo virtual.
         - Você tem computador?
         - Não, mas meu mundo também é desse jeito... Virtual.  Minha
mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu  fico
cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome, e eu dou  água
para ele pensar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz  que
vai vender o corpo, mas eu não entendo, pois ela sempre volta com o
 corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo. Mas sempre imagino nossa
 família toda junta em casa, muita comida muitos brinquedos de Natal, e
eu  indo ao colégio para virar médico um dia. Isto não é virtual, tio?

        Fechei meu notebook, não antes  que as lágrimas caíssem sobre o
teclado.

        Esperei que o menino terminasse de literalmente  'devorar' o
prato dele, paguei a conta e dei o troco para o garoto, que me
 retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que eu já recebi na
 vida, e com um 'Brigado tio, você é legal!'. Ali, naquele instante,
tive a  maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os
dias,  enquanto a realidade cruel rodeia de verdade, e fazemos de conta
que não  percebemos!

Recebi esta história por e-mail.

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